Artigos Entendendo o processo de secularização e suas matrizes Mas nem sempre foi assim. Sabemos que a religião sempre teve um papel de destaque no que diz respeito a ordem política-cultural-social. Ela se encarregava de direcionar o “modus viventis” das pessoas, bem como a forma de articular o pensamento. Criando uma cosmovisão que dava sentido a existência, a religião retirava o universo e a sociedade do caos, da anomia e dava significação a todo um mundo ordenado. Segundo Peter Berger, “ a religião serve assim, para manter a realidade daquele mundo socialmente construído no qual os homens existem nas suas vidas cotidianas”.1 Porém, com as transformações ocorridas na modernidade, a religião perde aos poucos sua influência junto a sociedade e passa a ser vista como algo secundário e ligada as preferências individuais. Se perguntássemos sobre os fatores que impulsionaram esse processo de secularização, teríamos que elencar vários elementos: as mudanças econômicas, políticas e culturais ocorridas no início da modernidade como o nascimento do capitalismo, o desenvolvimento comercial, o aparecimento dos Estados Nacionais que esfacelaram o regime monárquico bem como sua sustentação teológica; a reforma protestante que , além de desencantar o mundo católico com a recusa da mediação dos santos e sacramentos, retirou da Igreja Católica o domínio hegemônico sobre o Ocidente no que diz respeito a religião; o renascimento e o iluminismo que, deixando de lado a crença num Deus revelado, passa a assumir uma fé num Deus mais racional e que se encaixe dentro dos critérios puramente humanos; o desenvolvimento da indústria que altera o uso do tempo e os modos de vida das pessoas; os avanços científicos que trazem soluções para muitos dos problemas da humanidade e também dão explicações mais plausíveis da realidade. Em relação a secularização das consciências, quem muito colaborou para a secularização foram os chamados mestres da suspeita: Marx, Freud, Nietzsche. Marx, com a afirmação do papel da economia no que diz respeito a estrutura social, coloca em cheque a estabilidade das classes sociais teologicamente sustentadas. Freud, por meio de estudos psicanalíticos, explica o comportamento humano a partir não mais de uma natureza decaída, como faz a religião, mas através dos impulsos inconscientes que direciona o homem na busca de satisfação e prazer. Nietzsche, que declarando a morte de Deus, exorta o homem a agir a partir de si mesmo na sua autonomia e liberdade. De uma forma geral, eles explicam a realidade a partir do próprio homem, sem a necessidade de uma interpretação religiosa do mundo. O que podemos perceber em nossos dias em relação a secularização é que, ao contrário do que muitos sociólogos do passado pensavam, a religião não deixou de existir. Há uma crise, mas não da fé e da crença em si, mas do engajamento junto às instituições religiosas tradicionais. As pessoas continuam acreditando, mas do seu jeito. Cada qual acredita ter a liberdade de escolher a que credo professar, se vai ou não se unir a um grupo religioso específico. Há também um deslocamento do religioso para esferas de ordem social e também a presença de aspectos seculares no interior da religião. Muitos dos ideais humanistas apregoados pelos Estados como justiça, solidariedade, fraternidade, igualdade, liberdade, direitos humanos nada mais são do que uma nova roupagem da velha caridade cristã. Há o uso de símbolos religiosos nas propagandas de produtos. Há também toda um gama de agremiações esportistas, artísticas, políticas, culturais que se estruturam a partir dos velhos modelos religiosos do passado: hinos, ritos, símbolos, ideais e que realizam o mesmo papel da religião no que diz respeito a coesão social. Por outro lado, a própria religião passou a ser secularizada: há uma simplificação da liturgia e da pregação para se adequar aos novos padrões sociais. Há eventos religiosos de massa que em muito se assemelham aos shows seculares. Há cultos e pregações pela TV que se parecem em muito com os programas seculares de TV . Também há uma estrutura administrativa e de expansão das igrejas de cunho pentecostal que se fundamentam nas estratégias de mercado. Os questionamentos e mudanças não ocorreram apenas em relação a fé. Diferentemente do que ocorreu no passado, o próprio saber científico passa pelo crivo do questionamento. Sabe-se hoje que não há a chamada “neutralidade científica” mas que as pesquisas e os avanços tecnológicos são direcionados a partir dos interesses das grandes empresas. O homem de hoje já não é tão confiante no seu aparato racional como antigamente. Concluindo, podemos dizer que a crença e a fé em Deus, de um modo geral, não entraram no descrédito mas, ao contrário, tem aparecido nas últimas décadas movimentos em prol da espiritualidade. A ciência não deu conta de explicar tudo, o que leva o ser humano a novamente buscar respostas e refúgio junto ao Criador. Paulo Sergio Carlos –
seminarista diocesano, oblato da Comunidade Corpus Christi e estudante do 3º
ano de Teologia da PUC-Campinas. 1. BERGER, Peter L. O Dossel Sagrado. São Paulo: Paulus, 1985, pg 55.
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